ARTIGOS MÉDICOS 1

Quimioterapia poderá ser dispensável

Os médicos que tratam mulheres com câncer de mama estão vislumbrando a possibilidade de um futuro diferente. Depois de anos acrescentando mais e mais coisas ao tratamento – mais remédios, intervalos mais curtos entre as sessões de quimioterapia, doses mais fortes, períodos mais longos de tratamento com drogas pesadas – eles agora estão pensando que talvez muitas mulheres poderiam dispensar totalmente a quimioterapia.

Atualmente, as diretrizes nacionais pedem a aplicação de quimioterapia a quase todas as 200 mil mulheres cuja doença é diagnosticada como câncer de mama todos os anos. Na nova abordagem, que começa a ser mais profundamente pesquisada em dois grandes estudos, a quimioterapia seria utilizada preferencialmente pelos 30% de mulheres cujos cânceres não estejam diretamente relacionados à produção de estrogênio.

Até agora, os dados são sugestivos. As evidências são muito novas e ainda instáveis. E ninguém sabe dizer com certeza quais mulheres com tumores dependentes de hormônio podem dispensar a quimioterapia – a recomendação que a mulher recebe depende geralmente do médico que a está tratando. Poderá levar uma década até que os novos estudos, um americano e um europeu, forneçam alguma resposta.

"É um momento desconfortável", disse o dr. Eric P. Winer, que dirige o centro de oncologia de mama do Dana-Faber Cancer Center filiado à Universidade Harvard. "Alguns médicos sentem que temos informações suficientes para começar a recuar da quimioterapia em pacientes selecionados, e outros estão menos convencidos."

Para as mulheres com câncer de mama, a incerteza é penosa. Ante uma doença que já causa incertezas e ansiedades, elas agora são confrontadas com dados incompletos, opiniões diferentes e escolhas quase impossíveis: poderão – ou deverão – dispensar um tratamento quando não se sabem todas as repostas, e elas têm o que pode ser uma doença fatal?

O Instituto Nacional do Câncer e seus pesquisadores levaram dois anos para concordar com um projeto para testar a idéia de que muitas mulheres poderiam dispensar, sem riscos, a quimioterapia.

O estudo, que será iniciado no fim deste mês, envolverá mulheres cujos cânceres são alimentados pelo hormônio estrogênio e não se espalharam para fora das mamas. Elas serão aleatoriamente inscritas para receber o tratamento padrão, a quimioterapia seguida de uma droga como tamoxifeno que ataca os tumores privando-os de estrogênio, ou para dispensarem a quimioterapia e serem tratadas apenas com uma droga do tipo do tamoxifeno.

Na Europa, os cientistas estão planejando um estudo parecido. Mas diferentemente do americano, ele também incluirá mulheres cujo câncer se espalhou das mamas para nódulos linfáticos próximos.

As diretrizes nacionais e européias atuais dizem que quase todas as mulheres com câncer de mama que tenham passado dos estágios iniciais, quando ele está confinado ao duto mamário, deve ser submetida a quimioterapia. Uma série de estudos importantes mostrou que a quimioterapia salva vidas.

Mas a maioria desses estudos foi feita numa época em que os médicos não distinguiam entre os 70% de mulheres com cânceres alimentados por estrogênio do restante cujos cânceres não o eram.

Agora, um estudo recém-publicado revela que os benefícios da quimioterapia nesses testes clínicos se concentraram mais em um grupo: o de mulheres cujos cânceres são impenetráveis ao estrogênio.

Para os outros, com tumores sensíveis ao estrogênio, o benefício salvador de vidas veio da terapia hormonal, não da quimioterapia. Os resultados se mantiveram mesmo quando o câncer havia se espalhado para os nódulos linfáticos.

Mas o inconveniente desse estudo, observa John Glick, da Universidade da Pensilvânia, é que ele não foi um grande teste clínico aleatório prospectivo. Foi mais uma análise de dados de testes realizados antes de os cientistas perceberem a importância dos receptores de estrogênio que alimentam o tumor.

Há uma outra questão: e se, como Glick e outros estão convencidos, algumas mulheres com tumores alimentados por estrogênio se beneficiarem também da quimioterapia? Como serão identificadas? Uma possibilidade são os novos testes, que incluem genes associados com resposta à quimioterapia e genes envolvidos na resposta de uma célula ao estrogênio.

"Acho esse estudo realmente soberbo", diz Larry Norton, do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center em Nova York. "Gostaria que ele nos fornecesse dados definitivos."

O Estado de São Paulo – Oncoguia

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