ARTIGOS MÉDICOS 11

Alopécia


– Raio que médico tem mania de falar difícil; vai ver que assim eles conseguem disfarçar o tamanho da encrenca que possa estar se formando em nosso futuro imediato e sair de fininho enquanto a gente cai na real!!

A conclusão procede.

Fácil falar que meu lindo cabelo mechado, bem tratado, com movimento, brilho e liso quase do jeito que eu queria que fosse… Repito, fácil falar que "vai cair, mais não tem problema que depois cresce". Fácil, simples, verdadeiro, mas ao mesmo tempo, assustador, inexorável e inaceitável.

Fácil prá ele, que está me tratando e que repete a frase cinco a dez vezes ao dia para as clientes e depois vai encontrar a esposa, namorada ou a irmã na porta do cabeleireiro para pegar um cineminha no Shopping, não sem antes elogiar a cor e o corte novos que elas ostentam (me provocando?).

Ví na tv (na novela) o sofrimento da personagem que, desconsolada fitava o chão, enquanto alguém quase que acarinhava sua cabeça com aquela máquina zero, qual uma moto-serra desmatando sua cabeleira basta, loura e linda!!

Não me deram nem uma justificativa, nem uma razão não intrincadamente científica para a cena, que mais me lembrou uma chegada a Auchwitz tal sua brutalidade e aspereza.

Tudo isto prá "ficar boa…”. Boa de que? Não me disseram que "tiraram tudo", carregando para o Laboratório parte de minha feminilidade, mutilando meu peito e ferindo quase de morte minha vaidade, invadindo minha intimidade como num estupro "consentido"?

Credo, quanta encrenca em tão pouco tempo! Não imaginava que minha capacidade de agüentar desaforo fosse tão grande e tão repetidamente acionada em tão pouco tempo…

Será que não tem lado bom nesta estória? Minha vida virou uma novelona mexicana? Só falta todo mundo estar com dó de mim…

Coitadinha é o raio que o parta!!! Pensa que não reajo? Morro têsa, mas não perco a pose.

Mas que é duro, é.

Passado o susto inicial, me ocorreram algumas idéias; será que estou com tanta peninha de mim, que agora dei prá teorizar como Polliana?

A cirurgia, acho que nem senti.

Depois do bruto susto da mamografia (que nunca tinha dado nada), a biópsia, o resultado, os outros exames, a anestesia, o medo de olhar o peito depois de acordar misturado à estranha sensação de alívio de me ver "livre" daquele corpo estranho, os caras vêm me dizer, com jeito, que não tinha acabado, mas que "agora temos que complementar com o tratamento quimioterápico adjuvante"; será que não se mancam??

E agora ainda fiquei CARECA!!

Vamos ver com calma; agora, olhando no espelho (achei que nunca mais iria
me olhar no espelho) pensando bem, acho que estou caindo na real. Quanto sapo já engoli? De pai, mãe, filho, marido, sobrinho, cachorro latindo, vizinho, síndico, trânsito, reality show, grito de criança pentelha, professor, padre, governo (municipal, estadual, federal), etc e tal e NÃO GANHEI NADINHA?? Sem razão, sem lucro, sem lembrança, sem… ? Durante quantos anos a fio? Será que minha careca não está sendo moeda de troca (e não somente um desaforo vão) num negócio no qual, finalmente, posso ganhar algo? E este "algo" acho que é minha vida, meu futuro, o sol da manhã por mais tempo, o sorriso da formatura de meus filhos, meu envelhecer junto aos que amo, gestos simples que não percebi por décadas, prazeres da mesa e da(s)carne(s)…

A coisa parece que está tomando forma e acho que estou me animando; essa coisa de engolir sapo e trocar isto (meu cabelo) por aquilo (todo o resto da minha vida) pode até ser bom negócio… Si non é vero, é bene trovato,
Dizia a nonna.

Vai lá Doc, manda bala que eu güento!!!!

Dr. Claudio Petrilli
Oncologista clínico    Oncoguia

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