ARTIGOS MÉDICOS 2

Infelizmente muitas pessoas ainda manifestam preconceitos a respeito de psiquiatras e evitam procura-los. Pensam que, ao procura-los, estarão caracterizando a presença de uma doença mental e podem se sentir muito aflitos com a idéia de que possam ser considerados "loucos". Esta idéia não procede e é importante que possa ser combatida e afastada. Depressão e ansiedade são eventos bastante comuns e hoje, graças ao desenvolvimento de pesquisas sobre a origem destes transtornos e à busca de novas medicações, muito se conquistou em termos de avanços que permitem uma grande redução do sofrimento.

Estes cuidados médicos especializados (psiquiátricos), no que diz respeito ao paciente com câncer, se revestem de importância ainda maior. Sabemos que estados crônicos de depressão podem levar a uma diminuição da atividade do Sistema Imunológico de nossos organismos. É esse sistema o responsável pela defesa de nosso corpo. Agentes estranhos como bactérias e vírus são detectados e eliminados de nosso organismo pelo Sistema Imunológico. É por isso que, muitas vezes, quando estamos cronicamente deprimidos ou estressados, acabamos por apresentar algum adoecimento físico. Quem nunca teve, por exemplo, uma gripe ao fim de um período prolongado de depressão ou estresse?

Com o câncer acontece algo semelhante em termos da evolução da doença.

Estados de depressão podem levar a uma diminuição da eficácia do Sistema Imunológico que, por sua vez, poderá deixar de detectar e combater células cancerosas, levando a uma evolução pior da doença. Não estamos aqui, de forma alguma, pensando que estados emocionais possam causar o câncer, mas sim, que possam influir na sua evolução.

Muitas pesquisas mostram ainda que pessoas que não estejam deprimidas e que tenham uma atitude mais ativa e participativa em seus processos de vida, também aderem mais aos tratamentos e geralmente evoluem melhor.

Trabalhos recentes sugerem que pessoas que já apresentavam estados de depressão anterior ao surgimento do câncer têm uma probabilidade maior de não evoluírem tão bem quanto aquelas que nunca apresentaram depressões anteriores ao adoecimento por câncer. Daí esses autores sugerirem que os médicos estejam atentos à história de vida de seus pacientes para identificar fatos como esses e medicarem os pacientes com antidepressivos em doses eficazes para que estes tenham a mesma chance de evoluir tão bem quanto aqueles que nunca apresentaram depressões anteriores.

Já a ansiedade, quando em altos níveis, pode atrapalhar a tomada de decisões importantes para o tratamento de câncer, bem como dificultar a adesão a esses tratamentos. Sabemos que diagnóstico precoce e intervenção prestos são elementos importantes quando do surgimento de um câncer. Dificuldades e tomada de decisão em decorrência de ansiedade podem levar a um atraso na adoção de condutas diagnósticas ou terapêuticas.

Medos podem também desencadear comportamentos de evitação, de forma que os tratamentos possam ser prejudicados ou adiados, com possíveis prejuízos para o paciente.

Tanto quadros de ansiedade como os de fobia (medos) podem ser tratados por psicólogos e/ou psiquiatras, já que são necessárias a adoção de vários recursos simultaneamente, umas de domínio do psicólogo e outras de domínio do psiquiatra. As várias técnicas psicoterápicas são do domínio do psicólogo e muitas vezes também dos psiquiatras. Já o uso de medicamentos especializados é do domínio apenas do psiquiatra pelo fato dele ser médico.

Muitas vezes algumas pessoas da família também precisam se ajuda psicológica e/ou psiquiátrica. Há que lembrar que o câncer é uma doença que ainda traz muitos medos apesar de todos os avanços da medicina. De qualquer forma o diagnóstico de câncer acarreta também mudanças na vida do paciente e de sua família. Essas mudanças podem trazer o desencadeamento de reações emocionais que requeiram cuidados.

A experiência com tratamentos psicológicos e psiquiátricos tem mostrado bons resultados. Obtém-se melhor qualidade de vida tanto de pacientes como de seus familiares. Consegue-se também, como já mencionado anteriormente, melhor adesão aos tratamentos, o que por si só, sugere que o tempo de vida posa ser também positivamente influenciado.

É aconselhável que em momentos de crise lancemos mão de todos os recursos disponíveis em busca sempre do melhor resultado, de forma que o paciente possa viver mais e, sobretudo melhor.

Dr. Vicente Augusto de Carvalho
Psiquiatra, Presidente da Sociedade Brasileira de Psico-oncologia

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