DOSSIÊ – CÂNCER DE MAMA

Boas notícias na batalha contra o mais temido inimigo feminino. Com os avanços da ciência. Surgem terapias ultra-sofisticadas e métodos que permitem o diagnóstico cada vez mais precoce.      CRISTINA NABUCO

 

 

                                   Mesmo não sendo a principal causa de óbito feminino – perde para  os distúrbios cardiovasculares -, o câncer de mama, mais do que qualquer outra doença, apavora as mulheres. Não só pelo fato de atacar uma em cada dez que vivem até os 80 anos, mas porque, durante décadas, foi sinônimo de mutilação e morte. Até pouco tempo atrás, a paciente era internada para retirar um caroço suspeito e acordava sem o seio. Depois, tinha que enfrentar árduas sessões de quimioterapia e radioterapia, que nem sempre surtiam o efeito esperado. Não raro, o câncer reapareceria e destruía sua vida. Hoje, o quadro é outro: o câncer de mama pode ser diagnosticado em estágios iniciais, quando há 95% de chance de cura; muitas vezes o seio é preservado; drogas de última geração, menos tóxicas, estão conseguindo evitar o retorno da doença ou aumentar o tempo de vida da paciente. Não bastasse isso, fica cada vez mais claro que modificações no estilo de vida contribuem para a prevenção do tumor. “Está em curso uma mudança de padrão”, afirma o professor André Márcio Murad, chefe do Serviço de Oncologia da Universidade Federal de Minas Gerais. “Em dez anos, o câncer de mama vai se tornar uma doença crônica passível de controle”. Conheça as principais novidades.

 

TRATAMENTO

 

                                   TERAPIA-ALVO Drogas inteligentes atuam como mísseis teleguiados, atingindo só o tumor. Elas permitem a aplicação da quimioterapia – que arrasa tanto as células doentes como as saudáveis – em doses menos tóxicas. Um dos novos medicamentos é o TRASTUZUMAB, que ataca uma proteína produzida pelo gene HER-2/neu, presente em 255 dos tumores e responsável por uma forma agressiva da doença. Adotado no estágio inicial, ele possibilita a queda de 40% no índice de recidiva do tumor. Já o BEVACIZUMAB, outro remédio de ponta, bloqueia o fator de crescimento vascular endotelial, que estimula a formação de vasos que alimentam o câncer. “A quimioterapia funciona como uma bomba, depois vem a terapia-alvo, que corta o fornecimento de suprimentos para os sobreviventes da explosão”, compara Murad. Se o tumor possui receptores hormonais, após a cirurgia a paciente recebe outro tratamento, com TAMOXIFENO, que neutraliza o estrogênio, impedindo o reaparecimento do câncer. Cinco anos depois, ele deixa de surtir efeito e pode ser substituído por LETROZOL E ANASTROZOL, que têm papel semelhante.

 

RADIOTERAPIA INTRA-OPERATÓRIA Ela substitui a radioterapia convencional, que submete a paciente a baterias de radiação, diariamente, durante seis semanas. Pelo novo procedimento, a parte interna do seio fica exposta aos raios de altíssima energia, aplicados uma só vez, ainda na mesa de cirurgia. Eles destroem focos microscópicos que escaparam do bisturi. Além disso, como os raios se concentram no local afetado, evitam danos aos tecidos sadios do entorno. Estudos do Instituto Europeu de Oncologia, de Milão, mostraram que a intra-operatória é tão eficaz quanto a convencional. Já está sendo introduzida no Brasil.

 

PERFIL GENÉTICO No passado, os médicos lutavam sem conhecer o inimigo. A evolução das pesquisas genéticas e do conhecimento dos mecanismos moleculares do câncer ampliam as chances de vitória. Fragmentos do tecido lesado são analisados para verificar se possuem receptores hormonais e se correspondem ao tipo HER2 positivo. São as primeiras informações para se chegar à definição do câncer. “Em um futuro próximo, uma tecnologia batizada de microarranjos permitirá avaliar pelo menos 70 genes para traçar o perfil do tumor e obter um prognóstico mais preciso”. Diz Sérgio Simon, coordenador do departamento de oncologia do Hospital Albert Einstein em São Paulo. O resultado possibilitará individualizar ainda mais o tratamento, já que informa sobre a agressividade do câncer e orienta na escolha de drogas e intervenções.

 

CIRURGIAS

 

ASSOCIAÇÃO COM A QUIMIOTERAPIA Os tumores maiores agora são bombardeados, antes de qualquer intervenção, com novos quimioterápicos capazes de reduzir o seu tamanho. Assim, uma cirurgia de menor porte resolve o problema. A mastectomia (remoção total da mama) ficou restrita ao câncer extremamente agressivo e aos casos em que há vários focos da doença.  Além disso, é adotada em pacientes com seios pequenos, para quem a retirada de um pedaço traria um resultado estético ruim. Transtornos como inchaço, dores e restrição de movimentos do braço estão virando coisa do passado. Antes, o cirurgião dissecava 15, 20 gânglios da axila em busca de sinais da disseminação, prejudicando a drenagem do braço. Hoje, um material radioativo é aplicado na lesão. Depois, um aparelho rastreia a circulação linfática até encontrar um ponto onde aja acúmulo do material injetado. Se ali o resultado da análise for negativo, sinal de que a doença não se espalhou.

 

RECONSTRUÇÃO IMEDIATA   Até alguns anos atrás, a reconstrução do seio era adiada, temendo-se o retorno do câncer. Mas, com os avanços no tratamento, a reconstituição é feita no ato da mastectomia. As técnicas de plástica, bem como as próteses, também evoluíram muito.

 

SEM CORTE   Um achado suspeito na mamografia nem sempre requer cirurgia para coleta de material para a análise. As células podem ser aspiradas com uma agulha fina. Quando se trata de fragmentos de tecido, utilizando-se aparelhos, semelhantes a pistolas, que disparam agulhas para removê-los, mediante anestesia local. Se a análise microscópica der resultado positivo e a lesão for invisível, marca-se a área com agulha para que o cirurgião saiba que parte da mama extrair. Logo, essa marcação será substituída pela aplicação de uma substância radioativa que mostra o local do câncer.

 

DIAGNÓSTICO   A análise da lágrima e da saliva levará, no futuro, ao diagnóstico precoce. Por enquanto, a mamografia é o exame mais eficaz. Ela evoluiu tanto que revela microcalcificações malignas não palpáveis – na versão digital, a visibilidade é ainda maior. Graças a mamografia, a mortalidade por câncer no mundo caiu 44%. Deve ser feita anualmente a partir dos 40 anos e sempre que forem encontradas alterações durante o auto-exame mensal ou no consultório ginecológico. Ultra-som e ressonância magnética são exames complementares. O primeiro é indicado para mulheres jovens ou de mamas densas. O segundo permite ver melhor os tecidos quando há prótese de silicone. Observe se os serviços exibem o selo de qualidade do Colégio Brasileiro de Radiologia: ele indica que os equipamentos são adequados e os profissionais treinados.

 

 

ESTILO DE VIDA

 

                                   Apenas um pequeno grupo de mulheres com câncer de mama( de 5% a 10%) carrega propensão genética para desenvolver o tumor.”A maior parte, 80%, não tem nenhum caso na família”, afirma o chefe da disciplina de mastologia da Universidade Federal de São Paulo, Luiz Henrique Gebrim. Logo, o estilo de vida pesa no modo considerável no aparecimento da doença. Um estudo brasileiro com índias terenas confirma a tese: as que viviam na tribo menstruavam aos 14 anos, paravam aos 45 anos, engravidavam 20 vezes, em média e amamentavam por longos períodos. Portanto, permaneciam pouco tempo expostas à ação do estrogênio. A taxa de câncer de mama entre elas era zero. Já as que se mudaram para a cidade menstruavam mais cedo, paravam depois dos 50 anos e tinham, no máximo, três filhos. Nesse universo, as taxas se equiparavam às das mulheres nascidas e criadas nos grandes centros urbanos. “Embora não haja condições de modificar alguns fatores de risco, como o histórico familiar, mudanças no estilo de vida podem reduzir o perigo”, declarou a oncologista americana Leslie Bernstein, em dezembro, durante o 28° Simpósio sobre Câncer de Mana em San Antonio, no Texas. Veja as mudanças que você pode adotar para manter as mamas sadias.

 

1)      Controle o peso – A obesidade é mais perigosa para mulheres maduras. Após a menopausa, o tecido gorduroso sintetiza estrogênio, que pode estimular a proliferação de células malignas nos seios. Perder peso antes dessa faixa etária também traz grandes benefícios.

2)      Corrija a dieta – A incidência de câncer de mama é maior em países com dietas muito calóricas e ricas em gorduras de origem animal. O consumo regular de álcool também é nocivo. Já a alimentação que inclui azeite, verduras e legumes, em especial, brócolis, repolho, alho e soja, exerce algum efeito protetor.

3)      Pratique atividade física – De agosto de 2003 a agosto de 2004, dobrou o número de pacientes com menos de 35 anos atendidas no Hospital do Câncer A. C. Camargo, em São Paulo. O sedentarismo parece estar ligado ao aumento da incidência da doença em mulheres mais jovens. O alerta é do mastologista Luiz Henrique Gebim. Segundo o especialista, 30 minutos de exercício diários reduzem em até 30% o risco de aparecimento do tumor. A explicação é simples: a atividade muscular ativa a queima do estrogênio acumulado no organismo.

4)      Use pílula com critério – “Há fortes evidências de que o uso de anticoncepcional oral por mais de dez anos eleva razoavelmente o risco” diz Gebrim. Para a população em geral, talvez faça pouca diferença, mas quem tem antecedentes familiares pode sair ganhando se pesquisar outro tipo de contraceptivo.

5)      Pese prós e contras da reposição hormonal – A possibilidade de desenvolver câncer de mama cresce em quem repõe estrogênio e progesterona por mais de cinvo anos. Por isso, é importante avaliar com o ginecologista as vantagens e as desvantagens desse tratamento antes de se arriscar.

6)      Prevenção radical – Se a mulher tem duas parentes próximas (avó, mãe, tias, irmãs) atingidas pela doença antes dos 50 anos, a prevenção pode incluir a administração de tamoxifeno ou a adoção de medidas drásticas. Os oncologistas sugerem que ela adiante a maternidade e remova os ovários. “O risco de câncer de ovário diminuiu 90% e o de mama 60%”, explica o oncologista mineiro André Marcio Murad. Podem também optar pela mastectomia preventiva, que abaixa de 80% para 2% o risco de tumor de mama. Outra sugestão é iniciar os exames de rastreamento dez anos antes da idade em que a doença se manifestou em um dos membros da família.

 

      Matéria retirada da revista CLAUDIA- Fevereiro de 2006

 

 

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