DPI PARA CÂNCER DE MAMA – VOCÊ FARIA?

 
Por Mayana Zatz
Foi notícia de todos os jornais. "Nasce o primeiro bebê britânico sem o gene do câncer de mama." Na realidade, esse bebê, uma menina nascida na primeira semana de janeiro, foi selecionada para não ter uma mutação no gene BRCA1,  responsável por uma das formas hereditárias do câncer de mama, que já havia afetado várias mulheres da sua família. Isso não significa, infelizmente, que essa menina não corre risco de vir um dia a desenvolver câncer de mama ou outros tipos de tumores.
 
Qualquer mulher enfrenta risco
 
O risco de qualquer mulher vir a desenvolver um câncer de mama é de cerca de 10% a 12%. Basta viver o suficiente. Os especialistas concordam que a incidência tem aumentado mais do que seria de se esperar simplesmente pelo aumento da expectativa de vida. Por quê? Ainda não sabemos. Mudanças de comportamento, número de filhos, hábitos alimentares, ingestão de hormônios… São hipóteses a serem confirmadas, e ainda não há um consenso. Essas formas mais comuns de câncer, embora classificadas como doenças genéticas, não são hereditárias, ou seja, não são causadas por uma mutação em um gene específico transmitido diretamente de pais para filhos.
 
Diferença entre as formas mais comuns e hereditárias
 
Existem pelo menos dois genes bem caracterizados que causam as formas hereditária de câncer de mama – o BRCA1 e o BRCA2. A sigla BRCA vem do inglês breast cancer. Se uma mulher tiver uma mutação em um desses genes, o risco de que possa desenvolver câncer de mama passa de 10% – o risco que todas nós corremos – para 50% a 80%. Felizmente essas formas hereditárias correspondem a menos de 10% dos casos totais. Você só deve se preocupar com isso se houver vários casos de câncer de mama na sua família, geralmente de início precoce. Foi o caso do bebê britânico, tão alardeado pela imprensa mundial.
 
A mutação estava presente no pai
 
O pai da menina que acaba de nascer tinha uma história familiar de câncer de mama, com vários parentes de primeiro grau afetadas. O estudo molecular revelou que ele herdou a mutação no gene BRCA1 de sua mãe e, portanto, tem uma probabilidade de 50% de transmiti-la a seus descendentes. Uma filha que herdasse essa mutação teria um risco de entre 50% e 80% de vir no futuro a ter câncer de mama – um risco que esses pais não queriam correr. Como evitar? Resolveram recorrer ao diagnóstico pré-implantação, uma técnica da qual já falei em colunas anteriores.
 
O diagnóstico pré-implantação, ou DPI
 
Recordando: o DPI requer que o casal faça uma fertilização "in vitro", fora do útero. Quando o embrião tem oito células é possível retirar uma única célula e verificar se ela possui ou não a mutação. Se ela não estiver presente, não há risco e esse embrião pode ser implantado no útero. Não há risco, repito, para essa forma hereditária de câncer. Ou seja, ao invés de um risco de cerca de 50% a 80%, o risco de que essa menina venha a ter algum dia câncer de mama vai ser o mesmo da população em geral, aqueles 10%. A questão é: vale a pena submeter-se a esse procedimento com todas as implicações técnicas, éticas e emocionais sabendo-se que o risco, embora de 5 a 8 vezes menor, continua?
 
Ético ou não ético? Você o faria?
 
Só quem passou pelo drama de ver a mãe, avó, tias e outras parentes próximas morrerem precocemente pode avaliar o sofrimento que isso acarreta. A decisão de recorrer ao DPI para evitar a transmissão de uma mutação como essa não deve ser fácil. Em primeiro lugar, porque o risco continua. E em segundo, porque temos esperanças, e muitas, que em um futuro próximo seja possível curar o câncer. Mas esperanças não são garantia de nada. Hoje não podemos prometer nem estimar quando o câncer poderá ser curado. Submeter-se ao DPI e selecionar um embrião livre de uma mutação que causa câncer ou outras doenças ainda incuráveis, mesmo quando aprovado por comitês de ética, é uma decisão muito pessoal. E você, caro leitor, recorreria a um DPI nesse caso ou apostaria no destino?
 
Fonte: Veja
 

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