BRAQUITERAPIA

O prefixo braqui vem do grego, e significa curto, próximo, perto. Assim, a palavra braquiterapia foi criada para definir o tratamento com fonte de radiação, estando essa fonte muito próxima do tumor, às vezes em contato com ele, ou mesmo dentro dele. É um tipo de radioterapia que pode ser usada como tratamento exclusivo ou complementar à radioterapia externa em vários tipos de câncer, como por exemplo, de próstata, de colo uterino, de pulmão, de mama, entre outros.

 

Braquiterapia de Alta Taxa de Dose

A braquiterapia de alta taxa de dose é uma modalidade de braquiterapia em que se utiliza uma única fonte radioativa de 192Ir de alta taxa de dose, o que quer dizer que é capaz de fornecer uma alta dose de radiação aos tecidos num tempo curto. Fontes de baixa taxa de dose, por exemplo, levariam um tempo bem maior para fornecer a mesma dose. Apenas para se ter uma idéia, para o mesmo tipo de tratamento com baixa taxa de dose, era necessário que a paciente ficasse internada durante 4 dias com os aplicadores e as fontes colocados. O mesmo tratamento, com alta taxa de dose, não necessita de internação, e a paciente faz 2 aplicações diárias por 5 dias, sendo que o tempo de irradiação é da ordem de apenas 15 minutos em cada sessão.

Braquiterapia Intersticial no Tratamento Conservador

O tratamento conservador para o câncer de mama consiste em tentar se preservar ao máximo os aspectos da mama normal, como tamanho e forma. Para isso várias abordagens podem ser feitas, envolvendo cirurgia para retirada do tumor, e radioterapia para esterilização do leito tumoral e da possível doença residual.

A braquiterapia no tratamento conservador do câncer de mama entra como a modalidade de radioterapia utilizada para esterilização do leito tumoral e possível doença residual.

Indicações

A braquiterapia intersticial para câncer de mama deve ser indicada apenas para pacientes de baixo risco. O objetivo é evitar o reaparecimento da doença devido a uma falha no tratamento. Alguns fatores devem ser considerados como, por exemplo, a localização do tumor e o quanto ele está espalhado, se o tumor tem resposta positiva ou negativa para hormônios, fatores genéticos, tamanho e forma do tumor, bem como sua velocidade de multiplicação, e alguns marcadores biológicos.

Critérios de Seleção

  • Paciente com mais de 50 anos e que esteja em pós-menopausa.
  • Tumor menor ou igual a 3 cm e com um único foco.
  • Linfonodos negativos para a presença da doença ou, se positivos, até um máximo de 3 linfonodos.

Benefícios da Braquiterapia

A braquiterapia é uma alternativa à irradiação externa de toda a mama, pois permite que a radiação seja aplicada dentro da mama, no local da lumpectomia. Essa técnica assegura que a maior dose de radiação possível será dada justamente onde ela é mais necessária, ao mesmo tempo em que a dose de radiação que atinge as estruturas vizinhas sadias, como arcos costais, pulmão, coração e o tecido sadio da mama é bastante reduzida.

Outro benefício é o resultado cosmético do tratamento, ou seja, o aspecto da mama após o tratamento, já que é um tratamento que não mutila a paciente e, portanto permite uma recuperação mais rápida, inclusive do ponto de vista psicológico. Além disso, pode ser realizado no curso de uma semana com aplicações 2 vezes ao dia, ao contrário da irradiação externa, que chega a levar 6 semanas.

Efeitos Adversos

Alguns efeitos adversos da braquiterapia são infecção, necrose gordurosa, fibrose, eritema, edema, telangiectasia e alterações na pigmentação da pele. A paciente deverá informar-se com seu médico a respeito das probabilidades de ocorrência desses efeitos.

Implante Intersticial

Inicialmente é realizado um bloqueio anestésico do quadrante do tórax que sustenta a mama a ser implantada. Com o auxílio da ultra-sonografia, identifica-se a cavidade deixada pela retirada do tumor. O líquido existente na cavidade será aspirado com uma seringa, e um líquido radio-opaco conhecido como contraste será injetado no lugar, de modo a auxiliar o médico a identificar a área de colocação das agulhas no exame de mamografia. Isso pode ser desnecessário caso a cavidade da lumpectomia tenha sido marcada com clipes metálicos durante o procedimento cirúrgico de retirada do tumor, uma vez que esses clipes serão visíveis nas radiografias realizadas para o cálculo do tratamento.

A seguir, passa-se a colocação das agulhas ou dos cateteres de braquiterapia. A mama é lavada com uma solução anti-bacteriana para prevenir infecção. A paciente é colocada em posição adequada para a colocação das agulhas ou cateteres, decúbito dorsal ou frontal, de modo que a mama permaneça suspensa por uma abertura na mesa para permitir o acesso do médico. Um template plástico ou metálico será aplicado à mama. Esse template consiste de um arranjo de duas placas que formarão uma espécie de sanduíche recheado pela mama, comprimindo-a de modo a obter um volume aproximadamente retangular. As placas do template contêm furos dispostos regularmente, para guiar a colocação das agulhas ou cateteres de forma o mais paralela possível ao redor da cavidade da lumpectomia.

O próximo passo é a colocação das agulhas pelo médico radioterapeuta. Essas agulhas são do tipo abertas nas duas extremidades. Depois de colocadas, o médico passará um cateter plástico pelo interior de cada uma, retirando-as depois e deixando os cateteres, que serão fixados com a ajuda de botões que travam a movimentação dos cateteres ficando encostados na superfície externa da pele da mama.

Uma vez colocados os cateteres, a paciente passará às mãos de um físico médico, que auxiliado por outros físicos médicos ou pelo pessoal de enfermagem, irá proceder à obtenção das imagens necessárias para realização do planejamento computadorizado e do cálculo do tempo de permanência da fonte radioativa dentro de cada cateter. As imagens podem ser pares de radiografias em vistas antero-posterior e lateral, ou uma tomografia computadorizada do tórax, ou ambos. De posse das imagens, o físico médico irá realizar o planejamento no computador, verificando as posições de parada da fonte e buscando uma configuração que resulte no volume mais homogêneo e reduzido possível que seja capaz de englobar a cavidade da lumpectomia com uma margem de 2 cm ao redor dela. O resultado desse estudo será discutido com o médico radioterapeuta, e ambos deverão avaliar tanto o volume de tratamento e a sua homogeneidade e uniformidade, como também as doses de radiação recebidas pelas estruturas na vizinhança da cavidade, em especial a pele.

Uma vez aprovado o planejamento, passa-se à realização das sessões de tratamento, onde os cateteres flexíveis serão conectados através de tubos de transferência ao robô que controla a exposição da fonte radioativa, para execução da programação definida. A fonte radioativa será liberada pelo robô, entrará no primeiro cateter, e ficará estacionada nas posições programadas nos respectivos tempos de irradiação calculados. Em seguida será recolhida, e novamente liberada para entrar no cateter seguinte e executar a programação do mesmo, e assim sucessivamente, até que todos os cateteres tenham tido sua respectiva programação executada. Cada sessão de tratamento levará em torno de 10 a 20 minutos de irradiação, e será indolor, porém a paciente deverá permanecer sozinha na sala nesse momento, uma vez que os profissionais envolvidos não devem ser irradiados desnecessariamente. Serão 2 sessões por dia de tratamento, com um intervalo mínimo de 6 h entre cada uma, começando provavelmente na 2ªf pela manhã e terminando na 6ªf à tarde.

Após a realização da última sessão de tratamento, os cateteres serão retirados pelo médico radioterapeuta na própria sala de tratamento, sem necessidade de anestesia. A retirada dos cateteres causa pouco sangramento nos furos deixados, e a paciente provavelmente será liberada para ir embora ao mesmo dia. A pele cicatrizará normalmente, deixando pequenos vestígios dos furos, que deverão desaparecer por completo ao longo do tempo, proporcionando um resultado cosmético de ótima qualidade.

Comentários sobre os Implantes Intersticiais de Mama no contexto dos Possíveis Tratamentos Conservadores da Mama

O texto abaixo é uma tradução livre feita a partir da conclusão do artigo: Partial breast irradiation: revolution or evolution? J.M. Hannoun-Levi, e col. Câncer Treatment Reviews, 30: 599-607.

Irradiação Parcial da Mama: Revolução ou Evolução?

“Após 20 anos de investigações, já está bem estabelecido que o tratamento radio-cirúrgico conservativo para o câncer de mama é equivalente à mastectomia; entretanto, qual é o ganho real obtido dessa mudança gradual no tratamento do câncer de mama? Aumento no controle local? Não. Aumento na sobrevida? Não. Decréscimo no custo do tratamento? Talvez. Aumento na qualidade de vida? As diferentes análises sobre qualidade de vida aplicadas durante estudos randomizados de fase III comparando mastectomia versus tratamento radio-cirúrgico conservativo falharam em mostrar qualquer diferença significativa entre as duas abordagens em termos de ajuste psicológico ou qualidade de vida. Entretanto, a sexualidade e a imagem do corpo, especialmente em mulheres mais jovens, foram significativamente melhores no braço do estudo que contém o tratamento conservativo. Vinte anos depois, o tratamento conservativo não substituiu a mastectomia, mas mastectomia e tratamento conservativo são usados em conjunto para tratar diferentes subgrupos de pacientes e as características de cada subgrupo são agora bem conhecidas. A irradiação parcial da mama produziu resultados preliminares encorajadores em termos de controle local e resultados cosméticos. Entretanto, temos que considerar esses resultados muito cuidadosamente, porque sabemos que um segmento extenso é necessário para definir não apenas a taxa de recorrência no leito tumoral tanto quanto em qualquer outra parte na mama tratada, mas também os efeitos na qualidade de vida e no uso dos recursos de saúde. A irradiação parcial da mama somente deve ser realizada em pacientes envolvidas em provas clínicas controladas, e não considerado como um padrão no tratamento conservativo da mama. A irradiação parcial da mama não substituirá a irradiação total da mama usada para tratamento conservativo, mas poderá ser considerada como uma nova estratégia terapêutica para câncer de mama dedicada a um subgrupo de pacientes bem definido com um baixo risco de recorrência local, de modo a obter benefício das reais vantagens desse interessante procedimento.”

Márcio Tokarski Pereira

Físico Médico do Centro de Engenharia Biomédica da UNICAMP e Supervisor de Radioproteção do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher da UNICAMP.

Fonte: http://www.mamainfo.org.br

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