CÂNCER DE MAMA PODE GERAR ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

Trauma do câncer

Mulheres diagnosticadas com câncer de mama podem ser acometidas por síndrome psiquiátrica aguda, chamada de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), comum em pessoas submetidas a situações traumáticas.

Caracterizada por sintomas de evitação (como tentar evitar lembranças ligadas ao episódio), de hiperestimulação (irritabilidade, dificuldades de conciliar o sono e de concentração) e de revivescência (recordações aflitivas, recorrentes e intrusivas), o TEPT pode comprometer não só a qualidade de vida de pacientes com câncer de mama como a continuidade do tratamento.

É o que destaca uma pesquisa conduzida na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), que identificou o TEPT agudo em mulheres diagnosticadas com câncer de mama.

Não aceitação
O estudo foi feito com 290 pacientes atendidas no Hospital Pérola Byington, na capital paulista, entre agosto de 2006 e março de 2007. Os sintomas do TEPT estavam presentes em 81% das mulheres diagnosticadas com câncer de mama.

A pesquisa investigou também fatores associados a não adesão (ou a não aceitação) aos tratamentos para o câncer de mama e apontou que pacientes que apresentaram sintomas do transtorno tiveram menor adesão.

Segundo o estudo, 13,3% dos pacientes com esse transtorno interromperam o tratamento após o primeiro ano de acompanhamento. De acordo com Julio Litvoc, professor do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP e coordenador da pesquisa, o TEPT não tem sido avaliado adequadamente pelos profissionais.

Esse conceito é pouco utilizado pelos profissionais de saúde, por desconhecimento do transtorno e também por se valorizar as comorbidades associadas ao diagnóstico, como os transtornos de ansiedade, depressão e pânico“, disse.

Problema do diagnóstico
O estudo “Associação entre as respostas ao estresse em mulheres com câncer de mama e a adesão ao tratamento do câncer de mama” foi realizado por Sara Mota Borges Bottino, coordenadora médica da Psiquiatria do Instituto do Câncer de São Paulo (ICESP).

A primeira parte do estudo investigou a prevalência e o impacto do TEPT. Segundo Litvoc, o estudo relaciona a epidemiologia à psiquiatria. “A ideia foi produzir um trabalho voltado para a reorganização dos serviços de atendimento“, salientou.

O problema do diagnóstico é que as pacientes podem não manifestar os sintomas de maneira explícita, mas, ainda assim, desencadeá-los de forma a interferir no tratamento e na qualidade de vida. E o pior: não retornar ao médico“, disse Sara.

Segundo a psiquiatra, apesar de ser considerado um transtorno de ansiedade, uma das particularidades do TEPT é a imprevisibilidade. “A paciente não apresentava os sintomas relacionados à doença e, de repente, descobre-se doente após o diagnóstico”, apontou.

Negação
Assustadas, as pacientes evitam ter pensamentos sobre o câncer. Os sintomas de evitação se mostraram recorrentes em 58,2% dos casos. Segundo o estudo, os sintomas de evitação merecem maior atenção, porque podem ter consequências graves para as pacientes com câncer, que necessitam ir às consultas e fazer os exames pré-operatórios.

Esse sintoma é entendido pela equipe médica como ‘negação’. Mas, como parte de uma síndrome de transtorno do estresse pós-traumático, o diagnóstico é relativamente novo“, indicou Sara. Já os sintomas de hiperestimulação e revivescência apareceram, respectivamente, em 63,1% e 59,6% das mulheres entrevistadas.

De acordo com Litvoc, a segunda parte do trabalho – a da adesão – terá continuidade. “Essa segunda etapa trouxe resultados significativos que nos preocuparam. Daremos continuidade a ela aplicando outros métodos“, apontou.

Fonte: por Alex Sander Alcântara para Agência Fapesp. Novembro, 30, 2010.

Publicado por Ricardo Manacker

 

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NOVO LABORATÓRIO AJUDA A IMPULSINONAR TRATAMENTO E DIAGNÓSTICO DO CÂNCER NO PAÍS

No Laboratório de Nanorradiofármacos, Ralph Santos-Oliveira (segundo à esquerda) orienta alunos no desenvolvimento de suas pesquisas.

 

 

 

 

Há tempos o combate ao câncer conta com os radiofármacos, substâncias que contêm um elemento radioativo de extrema importância tanto para diagnóstico quanto para tratamento de tumores. Na América Latina, o Brasil é o maior produtor destes produtos. Em setembro, o setor ganhou novo impulso, com a inauguração, no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), de dois projetos pioneiros no País e na América Latina: um laboratório para produção desses medicamentos em escala nano (o equivalente a um milionésimo de milímetro), os chamados nanorradiofármacos; e um Escritório de Farmacovigilância de Radiofármacos. Ambos estão sob a coordenação do farmacêutico Ralph Santos-Oliveira, especialista em radiofarmácia e pesquisador do Instituto de Engenharia Nuclear (IEN) e do HUCFF, e contam com o apoio do programa de Auxílio à Pesquisa (APQ1) da FAPERJ.

Ralph Santos-Oliveira explica que o Laboratório de Nanorradiofármacos é o único do País com estrutura física para trabalhar a matéria radioativa em escala nano. “Por essa dosagem bem menor, os novos compostos expõem o organismo a menos radiação“, fala Santos-Oliveira. E acrescenta: “Além disso, atingem o tumor com maior precisão e, portanto, com menor risco de afetar órgãos sadios próximos.” Apesar de inaugurado há pouco tempo, o laboratório conta com uma equipe de pesquisadores que já desenvolve estudos conjuntos com dezessete instituições de ensino e pesquisa do Brasil e do exterior. “Atualmente, temos oito alunos, divididos em pesquisas de doutorado, mestrado e iniciação científica, além de dez especialistas atuando como colaboradores“, afirma.

Um desses estudos, em parceria com pesquisadores do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da UFRJ, está voltado para o desenvolvimento de um composto de samário-157 (Sm). “É comum que casos de câncer de mama ou de próstata evoluam para câncer ósseo. Quando isso acontece, entre os sintomas há a chamada síndrome incurável do câncer ósseo, que provoca dores fortíssimas e como o próprio nome diz, não tem cura. O tratamento, nesse caso, consiste em reduzir as dores no paciente com o uso de morfina ou com a secção do nervo periférico do paciente, que, se não eliminam totalmente a dor, reduzem-na substancialmente“, explica o farmacêutico. “Porém, o uso do Samário-157 é ainda mais eficaz. Uma única nanopartícula atingirá melhor o órgão afetado“, acrescenta. Santos-Oliveira acredita que o produto deva estar disponível no mercado em cerca de dois anos.

Com a ajuda de especialistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), também estão desenvolvendo três compostos diferentes. O primeiro é a chamada Teosfera, que consiste em nanopartículas com paredes duplas (uma parede protegendo outra) que tem no seu interior uma substância de interesse e no seu exterior insere-se, pelo processo de marcação, o elemento radioativo tecnécio-99m (Tc-99m). O segundo é a nanopartícula, de parede única, que assim como na primeira tem no seu interior uma substância de interesse e na sua cobertura, se insere, pelo processo de marcação, a substância radioativa tecnécio-99m. A diferença entre uma e outra está relacionada ao tipo de substância a ser inserido no interior da teosfera ou da nanoparticula. Em ambos os casos a inserção do Tc-99m permite avaliar sua biodistribuição assim como transforma os nanocompostos em nanorradiofármacos. “Os dois medicamentos podem, ser utilizados em exames de cintilografia, que servem para acompanhar a ação de rádiofármacos em órgãos afetados pelo câncer“, explica Santos-Oliveira.

O terceiro composto é a nanocápsula de hólmio-165 (Ho), que podem ser empregadas tanto para diagnóstico quanto para o tratamento de tumores. “Num reator nuclear, o hólmio-165 (Ho), que não é radioativo, vira hólmio-166 (Ho), que emite a radiação gama que costuma ser utilizada nos exames de cintilografia. Além de ser um emissor gama o hólmio-166 (Ho) tem propriedades paramagnéticas e assim pode ser utilizado também em ressonância magnética nuclear“, ensina Santos-Oliveira. “O hólmio-166 (Ho) emite ainda radiação beta, que pode ser empregada no tratamento de tumores“, completa. Os medicamentos já estão prontos para testes em animais.

Sob a orientação de Ralph Santos-Oliveira, a farmacêutica Alessandra Fusco está iniciando um estudo para criar nanocompostos com pequenos fragmentos artificiais de DNA ou RNA criados para aderir a uma molécula particular, celular ou organismo – os chamados aptâmeros – que, marcados com tecnécio-99m (Tc-99) e Rênio-188 (Re), se transformam em nanorradiofármacos. O trabalho, que está contando com a colaboração de pesquisadores da Universidade Aberta de Londres, também conta com apoio do programa de Auxílio à Pesquisa (APQ1), da FAPERJ. “Estes medicamentos são bastante eficientes contra o câncer de pulmão e de próstata”, explica Santos-Oliveira.

Novo escritório agregará qualidade a medicamentos
Já o caso do Escritório de Farmacovigilância de Radiofármacos, segundo Santos-Oliveira, veio como resposta à completa ausência de estudos no gênero na América Latina. “
Os portadores de câncer tomam muitos medicamentos por dia e os radiofármacos são um dentre tantos. Mas não sabemos verdadeiramente quais seus reais benefícios, ou quais as contra-indicações quando eles entram em contato com outros medicamentos e com o tipo de alimentação do brasileiro“, fala Santos-Oliveira. Ele explica que todos os estudos sobre o assunto vêm da Europa e dos Estados Unidos, que têm realidades culturais distintas da nossa. “Com este projeto, esperamos agregar qualidade a nossos medicamentos“, complementa.

avaliando os radiofármacos que utilizam, com destaque para os voltados para câncer renal e ósseo, os mais utilizados. Além disso, nos dias 23-24 de setembro, uma reunião com representantes das dezessete instituições participantes junto ao Ministério da Saúde, em Brasília, serviu para determinar os radiofármacos que serão estudados. Durante a reunião com representantes dos principais hospitais do país, realizada em São Paulo, ficou decidido a inclusão de todos os radiofármacos em,uso atualmente no Brasil. Dessa forma tanto radiofármacos usados em terapia assim como os radiofáramcos usados em diagnósticos serão avaliados.

No Rio de Janeiro, os pesquisadores ligados ao Hospital Universitário Clementino Fraga Filho estão avaliando os radiofármacos em uso, com destaque para os voltados para câncer renal e ósseo, os mais empregados. Já os representantes das dezessete instituições ligadas ao Escritório de Farmacovigilância vão avaliar todos os radiofármacos em uso atualmente em uso no País. “O assunto ficou decidido durante uma reunião realizada em São Paulo, em setembro, com representantes dos principais hospitais do país“, explicou Santos-Oliveira. “Dessa forma, tanto aqueles usados em tratamento quanto os utilizados em diagnóstico serão avaliados“, acrescentou.

A repercussão do novo escritório já chamou a atenção de autoridades da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas, escritório regional da Organização Mundial da Saúde para as Américas). “A Opas discutiu a utilização do modelo de estudos que faremos em nosso escritório para ser implantado em todos os países da América Latina, tendo o Brasil como líder nesse processo”, conclui o coordenador do projeto.

Fonte: por Vinicius Zepeda para FAPERJ. Outubro, 1, 2010.

Publicado por Ricardo Menacker

ESTABILIZAR O CÂNCER PODE SER MAIS IMPORTANTE QUE CURÁ-LO

Para atacar tipos de câncer resistentes à quimioterapia pesquisadores sugerem que a melhor estratégia não é eliminar o maior número de células possível, mas o mínimo necessário.

Já pensou na possibilidade de, em vez de se tentar curar o câncer, apenas impedir o crescimento dos tumores? Foi exatamente isso que propôs Robert Gatenby, do Moffitt Cancer Center (MCC), num artigo na revista Nature, na ultima semana de maio.

Gatenby está convencido de que altas doses de quimioterapia prejudicam o sistema imunológico do paciente e estimulam o crescimento de novos tipos de câncer resistentes à quimioterapia, sem esperança de cura. Em vez de curar o câncer ele sugere que os médicos tentem estabilizar o tumor num tamanho tolerável.

Isso significa, na prática, a identificação, de um tamanho-alvo para o tumor, que permita ao paciente a melhor qualidade de vida possível. Após essa identificação, seu crescimento seria monitorado por aparelhos de diagnóstico por imagem, como o escaneador de ressonância magnética. Os médicos, então, regulariam as doses de drogas anticâncer para manter os tumores no tamanho prescrito.

Segundo Gatenby, fundador do programa de Oncologia Matemática do MCC, o paradigma frequentemente utilizado até agora para combater o câncer reproduz o processo de tratamento de infecções bacterianas, sempre procurando o “antibiótico” para matar a célula cancerígena. “A estratégia mais comum é a terapia com densidade com doses de alta densidade. Aplicar a maior dose possível no menor intervalo possível resume o tipo de terapia clássico, que faz com que todos adoeçam“, ele observa.

Ele explica que “ao ministrar uma alta dose na terapia, todas as populações de células sensíveis ao tratamento são eliminadas, o que permite o crescimento de células resistentes, em grandes quantidades. Essas células se desenvolvem sob o efeito das doses elevadas. Os modelos matemáticos testados sugerem que sempre haverá populações de células resistentes à terapia no tumor”.

De acordo com a proposta de Gatenby, a analogia que se utiliza atualmente no tratamento do câncer é inadequada. Em vez da comparação entre câncer e infecções bacterianas, deveria ser utilizada uma analogia entre câncer e espécies invasoras. Segundo ele, “o objetivo não é eliminar pragas, porque a ecologia aplicada já mostrou que isso não dá resultado. Em vez disso, ela descobriu que o melhor é mantê-las em nível tolerável. É o que se chama de ‘gerenciamento integrado de pragas’, política adotada pelo departamento de agricultura durante o governo Nixon”.

A partir de modelos matemáticos, Gatenby constata que a melhor estratégia de gerenciamento para um câncer não-curável não é eliminar o maior número de células possível, mas o mínimo necessário. Ele acredita que não é viável eliminar todas as células quimiossensíveis porque elas podem reprimir o crescimento do tumor.

Os resultados de experimentos realizados em ratas com câncer de ovário e foram divulgados na edição de 1 de junho de Cancer Research. Segundo Gatenby, “tumores cancerígenos tratados com altas doses de carboplatina (quimioterapia à base de platina) foram dissolvidos e, desapareceram”. No entanto, em poucas semanas, lá estava ele de volta, crescendo novamente e provocando a morte do animal.

Em vez de aplicar a terapia tradicional (que consiste na aplicação de quantidades fixas de medicamento a intervalos constantes), determinamos o tamanho do tumor e aplicamos somente o medicamento necessário para mantê-lo estável. “As evidências preliminares mostram que, utilizando uma terapia com doses progressivamente decrescentes, fomos capazes de manter o animal vivo e sem sintomas”, observa Gatenby.

Há aproximadamente dois meses, admiti essa hipótese e a reação foi uma mistura de medo e desprezo”. O mais importante dessa reação é o fato de que pacientes e médicos jamais aceitariam a idéia de tratar, mas não curar. Os aspectos psicológicos envolvidos são significativos para aceitar uma terapia que claramente não visa a cura.

Gatenby comenta que “se você tentar curar centenas de pacientes e nenhum se curar, em termos tradicionais do senso comum, você terá que admitir que o tratamento foi ineficaz. Mas agora isso poderá mudar”.

Fonte: por Brendan Borrell para Scientific American Brasil. Junho, 15, 2009.

Publicado por Ricardo Manacker